Um dos principais entraves dos escritores brasileiros e acertar a atitude correta para com a escrita.

Graças à nossa cultura elitista, que cava um profundo fosso entre as pessoas capazes de pensar e o resto da população, a produção intelectual é valorizada de maneira desproporcional a seus efeitos.

Muitos intelectuais, por consequência, acham que escrever um livro os coloca num patamar diferente do restante da humanidade, adotando posturas de desprezo pelo publico, pelo mercado e pela simplicidade transmissão da informação.

Ao mesmo tempo, essa mesma perspectiva aterroriza o escritor em potencial, que muitas vezes não se sente à altura de tão nobre empreendimento. Escrever um livro não é fácil e sem dúvida exige alguma bagagem cultural, mas não é o bicho de sete cabeças que muita gente imagina.

Ficar se comparando aos grandes escritores de todas as eras é também um exercício inútil, que não aprimora nem acelera o seu trabalho.

Dou a seguir sugestões de atitudes para que você nem se iluda pensando ser a nova encarnação de Fernando Pessoa ou Clarice Lispector nem se deprima por não ser a mais recente encarnação de um deles.

 

Desapego

O primeiro ingrediente indispensável a um escritor profissional é a sua atitude de neutralidade em relação ao que escreve. Você pode colocar paixão em sua escrita, mas com certeza não sobreviverá por muito tempo se não aprender a se desapegar de seu trabalho.

Ainda mais que o escritor amador, o profissional deixa de ter qualquer controle sobre seu produto quando o entrega e pode vê-lo ser cortado, transformado em outro texto, receber novos títulos, muito editado ou simplesmente não impresso.

Claro que essas alterações não podem ofender a integridade de sentido, ou seja, nenhum editor pode publicar conceitos que você não tenha escrito ou com os quais não concorde sob sue nome. Mas pode mexer bastante neles.

Essa história de que um livro é um filho torna-se impraticável para um profissional.

 

Atitude Profissional

Todo trabalho free-lance, isto é, feito como um serviço prestado e não como um emprego regular, exige versatilidade e cuidados.

Como escritor, você precisa ser flexível a ponto de escrever sobre o que nem imaginava existir – a biografia de um apicultor ecológico, digamos – caso apareça a oportunidade de um trabalho interessante.

Por outro lado, você precisa aprender a negociar preços (que as editora sempre tentam levar para baixo) e prazos que sejam possíveis e praticáveis (para que você não manche sua reputação com constantes atrasos).

Dê sempre um prazo pelo menos 10% maior do que o que realmente possa cumprir. É muito melhor entregar um trabalho antes da data do que vários dias depois. E você não imagina a quantidade de coisas inesperadas que surgem para atrapalhar quando você tem um trabalho importante com prazo apertado para entregar…

Um outro ponto importantíssimo é o contrato que você faz – verbal ou escrito – com o editor ou autor que lhe passa o trabalho. Procure sempre esmiuçar os detalhes e gastar tempo entendendo o que o editor realmente precisa. Em minha longa vida de “frila”, os maiores problemas que tive decorreram da falta de clareza sobre o que o editor desejava.

Estabeleça até onde vai a sua liberdade, a quem precisa consultar para receber aprovação se encontrar problemas, o quanto precisa respeitar as eventuais esquisitices do “autor” caso esteja sendo ghostwriter de alguém muito encantado com sua própria importância.

Nesse último caso, bom humor é um ingrediente fundamental…

 

Princípios éticos

Quando você presta serviço, muitas vezes acaba escrevendo sobre temas sobre os quais nunca havia pensado. Pode acontecer de, repentinamente, você descobrir que está indo contra os seus princípios, ou alguém tentar convencê-lo a se distanciar do conteúdo do que escreve.

Minha sugestão: não o faça. A escrita é uma ferramenta muito poderosa, que pode não só levar pessoas a fazerem algo que você não aprove como denegrir sua imagem profissional como escritor.

Concorde apenas em escrever sobre temas que despertem o seu interesse e pessoas com as quais sinta alguma sintonia. Profissionalismo não significa fazer o que você não aprova, mas fazer bem o que você gosta.

 

Escritora Laura Bacellar

Escreva seu Livro – Editora Mercuryo